O glamour da imigração

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O título do post chama atenção mesmo. Quem escreveu sobre este tema e me inspirou a partilhar minhas reflexões, é uma amiga jornalista, a Andrea Medeiros, do familia kiwi.

Você pode ler o artigo dela aqui.

Achei super interessante e concordo com o ponto de vista dela. Mas na minha experiência de vida, vejo que esse “glamour” não é só ligado a imigrar. Vivi isso na pele muitas outras vezes e também tive uma visão errada, glamourizada sobre outras pessoas, em algumas situações.

Quando eu era executiva de multinacional, era frequente ouvir como a minha vida era puro glamour. Viajar e ter reuniões em Paris, Dublin, Copenhagen, New York. E era ótimo mesmo. Mas também tinham reuniões após 5 horas de carro no interior do Paraguai (sem saber se o carro ia conseguir passar por causa da lama! rsrs), ou no interior do México, dentro de um curtume e seus odores próprios.

Também tive aniversário sozinha em aeroporto, com vôo cancelado. Assédio sexual, acharem que eu era prostituta na Alemanha e não quererem me deixar embarcar. Ah, também já acharam que eu estava traficando drogas porque estava carregando mais de 5 suspeitíssimos pacotes de chocolate Lindt (quem faria isso, certo?).

Ou seja, como tudo em nossas vidas, as pessoas tendem a ver só um lado. O lado que elas querem ver. E muitas escolhem o lado que as torna vítimas, coitadas, azarados. Enquanto os “outros” conseguem tudo, sempre. E a grama do vizinho continua crescendo, mais verde qua a deles, sempre.

Muitos invejavam meu emprego, mas poucos tem coragem de recomeçar a vida profissional ganhando muito menos. Esse foi o meu caso quando entrei na Novozymes. Saí de uma empresa com um salário de gerente e recomecei, como assistente de projetos, com contrato temporário! Até chegar a account manager e fazer as viagens que tanto eram invejadas, foram muitos anos, erros, acertos, frustrações e dúvidas! E nem vou falar aqui sobre as dificuldades de ser uma executiva.

Agora no caso da imigração. Vamos lá, conhecer mais do glamour todo.

No Brasil tínhamos toda uma rede de suporte (diarista, família que ajudava com o Pedro quando tínhamos compromissos, uber, carro, van, etc). Aqui não temos nada disso. Existe uber sim, mas os valores são altos, poucas pessoas usam o serviço, não é como no Brasil. Diarista: aqui existe, mas é bem menos comum e quando você pensar em serviço, aqui vai pagar bem mais por isso. Como minha amiga bem colocou, aqui na NZ, a cultura é do DIY. Faça você mesmo. Porque eles gostam? Sim, também, mas por custos. Puro glamour!

Na nossa vida de imigrante glamourosa, alugamos uma casa de 3 quartos bem antiga.

A coifa do fogão não tem filtro até hoje, apesar das nossas inúmeras reclamações com o proprietário. Se eu frito qualquer coisa, parece que incendiou a casa. Meu filho ainda não tem cama, o sofá chegou ontem (EEEEEEE, depois de 5 meses sem sofá, você iria pular de alegria como eu). Minha mesa de escritório foi doação de amigos mês passado. Os 2 móveis que usamos como criado mudo no quarto tem lascas, riscos e foram comprados em um brechó semana passada. Tem janela que não abre…emperrada e mesmo depois de mil limpezas, cheias de resto de sujeira e limo por fora, impedindo que sejam abertas adequadamente.

Nossa vida “ryca” tem um carro poderoso…um volvo S80 que amo. Ano? 2004. Lataria? linda, riscada e com vários amassados. Adquirido com muito esforço e extremamente celebrado, no final de abril (lembrando que imigramos dia 2/12/2016).

Quer mais? O visto do meu filho ainda não saiu por questões de saúde dele (nada sério, mas aqui eles são bem rigorosos em dar visto para quem tem alguma questão pré existente). Essa semana a imigração nos procurou e pediu vários exames, além de consulta e relatório de um especialista. Está sentado/a? Uma consulta 400 dólares. Um exame 620 dólares.

Aí vocês podem dizer: Mas Fabi, você imigrou porque quis, porque está reclamando? Não gente, não estou reclamando. Só estou contando o outro lado.

E se você aí leitor está pensando: por que você não usou o seguro viagem? Por que não fez plano de saúde, etc, etc? Saibam,  não tem como colocar ele no plano de saúde aqui, é ILEGAL. Mesmo pagando o plano. Só é permitido inclusão de pessoas que tem visto acima de 1 ou 2 anos. Como no momento o visto dele não é igual ao meu e o do meu marido, não pode. Seguro viagem: Claro que fizemos, tem validade pelo prazo da viagem. A passagem do Pedro, como a minha era pra voltar para o Brasil em março.

Quem me conhece sabe, eu foco no positivo. Mesmo em horas de aperto, tento ver o outro lado, entender o que o universo está querendo me dizer.

É óbvio que existem dificuldades aqui. Como existem aí também! Como brinco: toda jornada de herói tem a parte das dificuldades.Como coach, falo isso diariamente: o importante é você aprender a viver e estar feliz com a escolha que fez. E se não estiver, escolhe de novo! 

Existem excessões? Claro! Existem imigrações que foram mais simples que a nossa. Se você tiver uma boa reserva financeira, facilita muito! Se for expatriado e a empresa colocar tudo que você tem em um container, também fica mais fácil. Mas cada um sabe das suas dores e amores.

O glamour da nossa vida hoje, na minha opinião, é viver sem ter medo. De verdade, acho isso chique demais. Posso ir e vir. Vestida como quiser. Mini saia, short, sozinha, à noite, não vou ter medo de ser assaltada ou coisa pior. Sair pra correr com o iphone e à noite sozinha? LUXO puro!

Meu filho pode andar por tudo sozinho. Frequenta uma escola onde crianças de 11 anos tem em aula discussões sobre inovação, assistem TED´s de sustentabilidade. Também podem criar projetos/assistir a aula sentado na cadeira ou deitados no puff…Ou produzindo na área de conhecimento partilhado (basicamente um corredor cheio de cadeiras, puffs sofás, quadros e flipcharts). Isso sim é glamour. Um glamour que eu nunca tive acesso, mesmo estudando em escola particular.

Glamour hoje para mim é acordar e ver paisagens maravilhosas diariamente, mesmo sem ter pares de sapato novos no guarda roupa, ou qualquer outro objeto que eu tinha em mais quantidade no Brasil. Vivemos uma vida mais leve, mais VIVA, quando comparo com como vivíamos lá.

Mas essa é a minha realidade, não sei como é a sua. Reforço: Estou muito feliz aqui sim. Tanto que não queremos mais voltar. Mas isso não quer dizer que é tudo bom, lindo e fácil.

Glamour mesmo, é saber o que se quer da vida, e ir atrás disso. Porque muita gente tenta, a maioria desiste e, poucos realmente fazem. Quem me conhece já sabe em que grupo eu estou!

 

 

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