Tenho mais asas que raízes

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          (Foto do meu arquivo pessoal, em Lyall Bay, Maio 17)

Tenho mais asas do que raízes. Muitas das minhas memórias de infância envolvem viagens. Meu pai era um grande planejador de viagens. Lembro de passarmos vários dias viajando de carro, parando em várias cidades no caminho, até chegarmos ao nosso destino final. Desde pequena virei companheira deles em muitas dessas viagens, eu adorava. Em uma delas, eu já devia ter uns 19 anos, meus irmãos não foram. Viajamos só os três e fomos de Curitiba até o Uruguai de carro. Foi uma das melhores viagens que já fiz.

O Brasil sempre foi um país de altos e baixos (mais baixos, infelizmente), educar nunca foi fácil – lá ou em qualquer lugar do mundo. Educa-se principalmente pelo exemplo (minha opinião), e meus pais sempre me deram exemplos de pessoas que lutam pelos seus sonhos…e que sonhos! Os dois mudaram completamente de vida com mais de 50 anos, aprenderam a navegar, compraram um veleiro, se prepararam e saíram para dar uma volta ao mundo. Viver 7-8 anos em um veleiro, era o projeto. Mas depois de 2 anos e meio (ou 3, agora fiquei em dúvida), sofreram um acidente em alto mar. Resumindo a história, acabaram morando nos EUA por vários meses, quando o furação Francis passou por lá e destruiu boa parte da cidade onde eles viviam; quando então, eles resolveram voltar para o Brasil.

Isso foi em 2004 e desde aquela época minha mãe brinca que só passa mal/fica doente quando está no Brasil. Meus pais não são ricos, também não são pobres… Tem um certo patrimônio adquirido com muito suor e esforço dos dois. Meu pai, com mais de 70 anos, ainda acorda várias vezes as cinco e meia da manhã para viajar e dar suas aulas de navegação. E faz com amor, muito amor!

Eu cresci vendo um pai que trabalhava muito e não me parecia feliz de verdade com o seu trabalho. Acho que ele nem sabe que eu o via assim. Trabalhar parecia algo que cansava demais, precisava de muito esforço e que roubava tempo das coisas boas e divertidas rs. Hoje, nas oportunidades que tive de vê-lo trabalhando, vi um homem pleno, completamente realizado, sem cargos, sem posições. Puxei a ele, acho. Ele se realizou e descobriu que tem asas. Ou melhor, com a paixão pelo mar, devo dizer que ele tem guelras e nadadeiras?

Porque estou falando tudo isso, qual a relação com viver na Nova Zelândia? Meus pais, através do exemplo, me fizeram ser uma apaixonada por viagens, conhecer pessoas e novas culturas. Está no sangue. Desde muito nova, escutei deles como eu deveria aproveitar qualquer oportunidade de viajar e aprender.

Eu não sei bem explicar porque, nem como, mas sempre tive certeza que nunca moraria para sempre no Brasil. Eu não tenho vergonha de dizer que não tenho esse apego à minha terra. Aliás, à terra nenhuma. Gosto muito daqui, mas volta e meia me pego lendo sobre o próximo lugar que quero morar. Aos 42 dois anos, se sinto cheia de vida e vontades ainda, diversos lugares que ainda quero conhecer, explorar e mesmo morar por um tempo.

Quando volto a morar no Brasil? Provavelmente não tão cedo. Eu não tinha certeza disso até recentemente. Vejo textos de vários brasileiros fora de casa falando da dualidade e do sofrimentos de estarem longe.

Foi quando me dei conta que não tenho esse conflito. O que não deixa de ser engraçado, visto que eu não sabia praticamente nada sobre a Nova Zelândia até poucos meses antes de me mudar para cá.

Eu não sinto falta de nada do Brasil. Só das pessoas que amo e que estão lá. Mas ainda bem que existe tecnologia e que eu tenho asas, e posso, vez ou outra, voar para lá e matar as saudades.

 

4 thoughts on “Tenho mais asas que raízes

  1. Renata Marques says:

    Que delicia de artigo, Fabi! Eu também fui criada com asas. As histórias são diferentes mas me identifiquei muito. Exceto de não sentir falta de nada do Brasil. Saudades de um churrasco!!!

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    • Fabi Ormerod says:

      #TamoJunta Re. Obrigada pelo elogio, que bom que você gostou! eu sinto falta de paçoca rsrsrs…mas não morro hahaha. Churrasco é a praia do Fran que é gaúcho e morre sem a picanha. Eu não ligo muito não. Do churrasco o que eu mais gostava era a bagunça hahaha.

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  2. Valéria says:

    Sabe o mar está no sangue da família.
    Seu avô Dorval,meu pai, foi da Marinha Mercante. Parte da minha infância as férias eram viagens de navio.
    Então temos sal no sangue!!!

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