Eu menti

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(Foto de Janeiro/17, Rotorua, NZ)

 

Depois de algumas conversas essa semana, especialmente ontem, percebi que eu havia mentido, sem nem perceber, mais de uma vez. Menti quando fui perguntada sobre “Já se acostumou aí“? Minha resposta padrão sempre foi: “Sim…na verdade penso que nem tem o que se acostumar…” (escrevi sobre isso também). Mas hoje me senti diferente da Fabi que imigrou em dezembro. Percebi em mim coisas que não havia percebido.

Quando tenho esses insights, tenho vontade de escrever. Me ajuda a organizar os pensamentos. Além disso, queria me retratar por ter mentido.

A primeira coisa que conclui, é que eu passei sim, por uma período de adaptação à vida aqui. Não foram só questões pessoais como falei em alguns textos anteriores. Mas eu não havia percebido isso antes. Essa adapatação tem vários cenários e é única para cada pessoa que imigra. Algumas dessas coisas, como a questão dos amigos, saudades da família, aconteceriam mesmo se eu mudasse para outro estado brasileiro. Outras adaptações, acredito que aconteceram somente por ser uma mudança maior…por vir aqui para Nova Zelândia mesmo. Esse é meu olhar ,certamente meu marido, por exemplo, já pensa sobre adaptação de uma forma distinta.

Algumas coisas que refleti sobre adaptar-se à vida na Nova Zelândia estão diretamente ligada as diferenças na forma de trabalhar e viver aqui, principalmente na parte de finanças pessoais. Como tudo se paga à vista e compra-se muitos objetos/móveis usados; temos que literalmente reaprender a nossa organização financeira.

Profissionalmente, damos alguns passos para trás. Fazemos coisas que nunca imaginamos fazer em termos de trabalho; como por exemplo, fazer um trabalho voluntário continuamente (e não uma hora por semana), para que isso te dê vantagens na hora de conseguir um emprego. Trabalhamos com uma flexibilidade de dias, horários, férias, dias de folga, que não conhecemos. E isso também é “se acostumar”. Eu por exemplo aceitei trabalhar em uma escola fazendo algo que nunca fiz antes.

Relembrei meu primeiro dia de trabalho aqui. Cheguei lá e fiquei procurando onde eu “batia o ponto”, onde registrar que eu havia chegado, já que trabalho por hora. Após alguns minutos, uma das funcionárias me perguntou o que eu precisava e eu expliquei: Como faço para registrar a minha entrada? O que se seguiu foi uma conversa muito inusitada, pois ela não entendia o que eu queria registrar! Até que eu disse: eu trabalho só 14 horas por semana. Se eu não apareço na escola, ou se eu chegar atrasada, como vocês vão controlar o meu horário para ajustar no pagamento? Ela riu e disse: bom, se você não aparecer na sala dos professores/staff na hora do morning tea (como o recreio), então a gente sabe que você não veio rsrsrs. Mas porque você precisaria registrar em algum lugar que chegou para trabalhar? Se você não puder vir você vai ligar e avisar não é? Expliquei como é no Brasil e ela achou tudo muito estranho.

Isso é só um exemplo de como meu mindset de brasileira, precisava se acostumar a vida aqui. Outro exemplo que lembrei, foi a questão de conseguir dormir. Gente, eu não dormi bem por uns 15 dias…e não foi pelo fuso! Foi porque eu me sentia extremamente insegura em dormir em uma casa sem grades, muros, com a porta que parece de brinquedo. E isso é louco demais! Pelo menos eu acho. Hoje pensando sobre tudo isso, vi que a gente se acostuma a muita coisa no Brasil, que na verdade são um choque para pessoas de muitos outros países, mais seguros.

Também me acostumei a não me assustar quando vejo notificação de terremoto no geonet. Nas primeiras semanas ficava preocupada. Agora entendo melhor a estrutura local, a segurança e também sei que não preciso do aplicativo. Se tiver um terremoto mais forte, eu vou sentir! Todos outros, abaixo de 5.5-6, acontecem sem eu nem notar.

Então, meus queridos leitores, desculpem por eu ter mentido. Eu não havia percebido que realmente, há muito o que se acostumar para viver aqui. É como seu a gente fizesse uma reeducação sabe? Também temos que mudar nosso mindset e reprogramar alguns conceitos.

A gente imigra pra cá e passa um tempo com “os dois pés atrás”. Pelo menos aconteceu isso comigo. Eu não estava acostumada com essa confiança toda. No trabalho, no supermercado (onde você mesmo passa suas compras e ninguém te pede recibo ao sair), no cinema (onde por mais de uma vez entramos sem ninguém conferir as entradas). Lembrei agora de quando compramos o carro. Fizemos o test drive e ninguém da loja entrou no carro com a gente! É muita coisa mesmo para se acostumar.

Não é só a saudade e o fuso, que eu e todos imigrantes falamos. Mas são a todas essas diferenças, sejam as maiores ou as pequenas. É se acostumar a ir na embaixada fazer seu passaporte, pagar e sair com ele em menos de meia hora. É se acostumar a ter várias opções de lazer sem custo. A andar pelas ruas sem ouvir uma cantada ou baixaria sequer, não importa como esteja vestida. A deixar seu filho de 11 anos ir e voltar sozinho a pé para escola, porque é seguro. Acho que eu dizia que não tinha o que se acostumar, porque a gente se acostuma rápido com o que é melhor!

É também se acostumar a não fazer manicure, pedicure e tudo mais que estava no seu ritual de beleza no Brasil. Ainda estou pensando porque eu fazia tudo isso lá. Eu gostava…ainda gosto de me arrumar e me cuidar. Porque me acostumei a não fazer tudo isso aqui? Porque lá eu me sentia mal em repetir uma roupa e aqui já fui ao mercado de pijama sem me sentir mal por um segundo? Acho que ainda estou achando o meio termo entre a vaidade e cobrança social que a mulher vive no Brasil e o “couldn´t care less” daqui. Mas isso vai ficar para outro texto!

Em março fui ao Brasil e em uma sessão com minha master coach linda, lembro que ela me falou: “Não sei ainda o que o universo está querendo te ensinar com essa mudança”. E eu na época respondi que também não sabia.

Aos poucos, acho que estou descobrindo a resposta. Estando tão longe e sem a estrutura de apoio emocional que eu tinha no Brasil, estou trabalhando as arestas que ainda precisavam ser aparadas no meu desenvolvimento pessoal. Eu comigo mesma, sabe? Estou percebendo, enquanto escrevo, que ainda tem muita coisa no meu mindset que está mudando. E está tudo bem. Não tenho problemas em dizer que percebi que não estava me enxergando com clareza nos primeiros meses aqui.

Sei que aqui estou aprendendo a valorizar coisas que já havia esquecido. Aprendi, assim como outros amigos imigrantes, a celebrar coisas que eu nunca celebrei no Brasil. Minhas vitórias aqui têm sido outras. Comprar um móvel para casa, comprar um carro usado (e batido! rsrs), o primeiro trabalho voluntário, a primeira oportunidade de quem sabe, fazer uma palestra.

Agora, estou sim, mais acostumada à vida na NZ. Mas sei que a qualquer hora posso me surpreender e fazer uma nova descoberta sobre o que mudei e não havia percebido.

Talvez o universo esteja me mostrando é que eu ainda estava mentindo para mim mesma. E agora, aos poucos, estou descobrindo algumas verdades sobre quem sou e sobre o que realmente quero para minha vida.

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